Um Ayurveda nada tradicional

Todo iniciante em Ayurveda pode se chocar com as famosas regrinhas de conduta diária conhecidas como dinacharya.

Pode se chocar também com a quantidade de óleo que é recomendada usar para nutrir a pele, os cabelos, o nariz, os ouvidos etc etc — sim, o ayurveda recomenda a inserção de óleos até nos ouvidos.

Muitas coisas do Ayurveda podem causar certo estranhamento porque a nossa cultura ocidental é muito diferente.

Mas, ainda assim, o iniciante deslumbrado começa seguindo tudo ao pé da letra, à risca, como um estudante disciplinado e dedicado.

Acredite em mim, eu já estive nesse lugar.

Acordar antes do sol nascer (o que eu faço desde sempre sem qualquer objeção), passar óleo no corpo todo, usar pó de leguminosas para se limpar, comer seguindo uma tabela dos doshas, nada de álcool, nada de industrializados, e por aí a lista vai.

Bem, quando eu morava sozinha, em outra cidade, longe dos amigos e familiares, era até fácil seguir esse lifestyle, com saídas esporádicas do script. Mas eu percebi que essas regrinhas não são sustentáveis no longo prazo.

Se você já conhece Ayurveda, ou se você ainda está iniciando, vou buscar fazer um breve nivelamento para que possamos continuar com a linha de pensamento que estou trazendo aqui.

Ayurveda, que significa literalmente “ciência da vida”, é um dos sistemas de medicina mais antigos do mundo, com origem na região da atual Índia.

Eu sou apaixonada pelos ensinamentos tradicionais do Ayurveda, que é uma ciência inclusiva, e não exclusiva. Em outras palavras, Ayurveda diz que tudo o que existe na natureza é medicinal. E com base nesse ponto de vista, os ensinamentos tradicionais descrevem as características das energias que compõem o corpo, a mente, os alimentos (frutas, cereais, leguminosas, carnes, ervas, vegetais, especiarias), as doenças… enfim.

Os textos tradicionais são um verdadeiro compilado de ensinamentos sobre a vida em todas as suas dimensões, até sobre a espiritualidade, os relacionamentos, a influência dos astros, das estações e tudo o que você possa imaginar.

E a tradição ensina que o ser humano que quer uma vida longa, com saúde e riquezas materiais, deve se dedicar aos ensinamentos do Ayurveda.

Aqui eu faço um breve lembrete de que essa ciência é inclusiva, sem discriminações sobre o que é bom e sobre o que é ruim. O Ayurveda nos ajuda a entender como todos esses elementos se relacionam entre si, como eles atingem um estado de equilíbrio e como eles podem ser desequilibrados e reequilibrados com práticas de autocuidado diário e estilo de vida.

A saúde é um estado dinâmico, pois estamos o tempo todo interagindo com o ambiente à nossa volta, com pessoas, com nossos pensamentos. E nesse movimento constante, é fácil perder o ponto de apoio.

Por isso acredito que estudar essa ciência (não precisa fazer curso de formação, nem se aprofundar demais não… você pode buscar um direcionamento com algum profissional ou buscar o assunto na internet, e com algumas informações já é possível ampliar os horizontes e incluir práticas mais conscientes na vida cotidiana) é fundamental para quem deseja uma vida com mais harmonia e para quem não quer ser refém de informações contraditórias sobre saúde.

Há muitas informações contraditórias justamente porque cada ser é único e vai responder de forma diferente aos estímulos que recebe. O Ayurveda nos dá ferramentas para “ler” a forma como o nosso sistema corpo-mente opera e como as substância interagem com esse sistema.

Por exemplo, se você tem uma natureza com muito fogo, viver em um lugar quente, comendo alho e pimenta vai piorar muito. Incluir chás de ervas com potência fria e alimentos refrescantes vão ajudar a diminuir o elemento fogo para manter o equilíbrio.

Ou se você tem uma natureza mais seca, viver em um lugar úmido pode ser um grande remédio.

Agora que já fizemos um breve nivelamento, vamos seguir.

Quando você tem o seu primeiro contato com o mundo do Ayurveda, você certamente vai ouvir falar em doshas e dinacharya. Dinacharya, como eu disse lá no começo, é um conjunto de “regrinhas” diárias que o ser humano deve praticar para que mantenha a sua saúde e juventude.

E junto com essas práticas vêm algumas regras sobre alimentação e estilo de vida.

O meu ponto aqui é que, apesar de eu nutrir o maior respeito pela tradição védica (quem estuda a tradição védica sabe como é levado a sério a transmissão do conhecimento sem distorções e em sua forma mais pura, sem margens para interpretações) eu preciso fazer esse ato de rebelião.

No início eu era um pouco radical e gostava de seguir os ensinamentos à risca.

Até alguns dos meus mestres são extremamente radicais e rígidos para seguir e ensinar essa ciência da forma clássica, aprendendo a língua do sânscrito e tudo o mais.

Eu estive na Índia e vi como eles respeitam a tradição.

E como eu disse, eu nutro o maior respeito e admiração pela forma como essas pessoas se dedicam à tradição védica.

Mas eu preciso ser sincera comigo mesma e com a minha forma de enxergar as coisas.

Vivemos em um mundo muito diferente do mundo de cinco mil anos atrás quando o Ayurveda já era praticado e ensinado.

Vivemos em um mundo escravo da vida em sociedade (para a grande maioria das pessoas), onde interagimos o tempo todo com pessoas e onde ficamos tão inseridos nos dramas da vida diária que nem mesmo paramos para pensar qual estação do ano estamos vivenciando ou qual a fase atual da Lua.

Vivemos em um mundo extremamente dependente das telas para realizar o seu trabalho ou para se comunicar com outras pessoas.

Vivemos em um mundo onde mulheres enfrentam problemas de fertilidade, mas acha normal se entupir de hormônios sintéticos, os quais possuem muitos efeitos adversos ainda desconhecidos. Mulheres que sequer sabem que seus ciclos, quando equilibrados, acompanham em perfeita sincronia o ciclo lunar.

Vivemos em um mundo que o alimento orgânico é quase impossível ou inacessível.

Vivemos em um mundo cheio de tecnologia, que facilita a nossa vida, otimiza o nosso tempo, mas nos faz perder a capacidade de pensar ou raciocinar.

Bom, essas são só algumas coisas. Mas fato é que apesar de todas essas coisas que nos distanciam da nossa própria natureza e de quem a gente realmente é, há ainda pequenos momentos de prazer que não podemos ignorar, ou a vida se torna insustentável.

Por exemplo, eu não abro mão de noites gostosas tomando um vinho ou um bom drink. Não abro mão de um delicioso chocolate ou croissant de vez em quando. Não abro mão de sair um pouco da rotina no final de semana e me permitir curtir a cama até mais tarde ao lado de quem eu amo. Não abro mão de atrasar um pouco o horário do almoço ou do jantar para confraternizar com quem eu amo. Também posso faltar um dia de academia porque eu quis acordar e fazer algo diferente.

Por isso eu acabei de criar a Confederação do Ayurveda Nada Tradicional, defendendo que, ok, devemos saber as regrinhas do Ayurveda, mas devemos adaptá-las ao nosso estilo de vida moderno, sem rigidez e sem restrições, porque precisamos curtir esses momentos de prazer que a vida nos presenteia.

Uma das premissas do Ayurveda é que tudo na natureza é medicinal. Por que uma refeição de um sanduíche com batata frita não pode ser medicinal? Ou por que uma festa que dura até as 3h da manhã não pode ser medicinal?

Na Confederação do Ayurveda Nada Tradicional eu defendo que esses momentos de prazer são medicinais para muitas coisas. Para nos permitir sentir as deliciosas sensações do paladar (se não qual a graça de ter paladar?); para nos permitir encontros sociais divertidos e que nos enchem de alegria… e uma infinidade de outras coisas que nos causam felicidade.

Enfim.

Acho que viver esses momentos faz parte da nossa experiência humana. E eu reconheço que certas coisas, se feitas com frequência, podem levar ao adoecimento.

Mas uma vez aqui e outra ali, não pode fazer mal, principalmente quando você conhece as ferramentas que te trarão de volta ao equilíbrio se você sair dele por um breve instante.

Claro que há casos que uma restrição maior por um certo período de tempo é necessária. Mas não estou falando desses casos. Estou falando da vida maravilhosa que nós temos, das oportunidades de vivenciar coisas maravilhosas que não podemos perder por causa de um conjunto de regras rígidas e tradicionais que supostamente ditam que se você não segui-las, você vai adoecer e morrer antes do tempo (que fique claro que o Ayurveda não fala nada disso kkk).

Eu acredito que devemos buscar viver com saúde e harmonia sim, porque queremos ter qualidade de vida. Não importa quanto tempo vamos viver (acho que ninguém vai embora antes da sua hora), desde que sejam anos de qualidade.

(ps: não tenho problemas com o assunto morte, acho que é um tópico interessante até)

Saúde é o nosso bem mais precioso, pois é graças a ela que todas as outras coisas são possíveis de serem realizadas.

Além de tudo isso, acredito que o conhecimento do Ayurveda deve ser mais acessível… sem tantos termos em sânscrito (sei que alguns não têm tradução, mas é preciso torná-los palatáveis para disseminar um conhecimento tão nobre e rico).

É possível se tornar amigo do Ayurveda de uma forma leve e prazerosa, sem precisar se tornar um phd ou sem precisar ser rígido com as regras.

Também é possível viver o Ayurveda sem precisar ficar passando óleo… você pode dessfrutar de um hidratante convencional super cheiroso que te trará felicidade pelo sentido do olfato.

Se você almoça com a sua família, e ali é um momento de trocas especiais, porque se isolar para “comer em paz sem perturbações”?

Eu, como sempre fui curiosa e busquei autonomia e liberdade para fazer as minhas próprias escolhas, acredito que esse breve insight sobre o Ayurveda Nada Tradicional também te instigue a buscar a sua autonomia quando o assunto é saúde, sem se deixar assustar com um suposto conjunto de regras rígidas e termos em sânscrito.

Você, melhor do que ninguém, sabe o que é o melhor para você.

Escute o seu corpo. Escute o seu coração.

Por isso, não importa em qual degrau você esteja no Universo do Ayurveda, tente refletir sobre como você pode adaptar a sua vida para manter o equilíbrio na maior parte do tempo, e como desfrutar de momentos especiais com as pessoas queridas dispondo das ferramentas certas para retomar o seu equilíbrio se necessário.

Não se sinta culpado por não conseguir seguir regras rígidas ao pé da letra. A vida é dinâmica e a única constante dela é a mudança.

Saúde não é só o que fazemos, mas é o que sentimos também — o nosso estado de espírito frente aos acontecimentos da vida.

Se você for feliz, você certamente terá saúde.

Aqui deixo a recomendação do documentário maravilhoso “Como Viver até os 100: Os Segredos das Zonas Azuis”.

Com amor,

Morgana.

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