Tempo, tempo, tempo, tempo
[…]
Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Entro num acordo contigo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo, tempo, tempo, tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo, tempo, tempo, tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo, tempo, tempo, tempo
Quando o tempo for propício
Tempo, tempo, tempo, tempo
De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo, tempo, tempo, tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo, tempo, tempo, tempo
[…]
Essa semana eu estava pensando sobre o tempo, e nada melhor para começar uma reflexão do que uma bela melodia inspiradora de Caetano Veloso.
O tempo é uma grande incógnita para a maioria dos seres humanos, quiçá todos os seres humanos. O tempo cura feridas, abranda animosidades, nos faz cair no esquecimento, faz sinais no nosso corpo, nos permite construir, reconstruir, amadurecer. Ele faz horas parecerem minutos, e minutos parecerem horas. Como entender algo tão paradoxal?
Na mitologia grega, Chronos, o deus do tempo, devorava os próprios filhos. Não à toa, parece que diariamente somos devorados pelo tempo cronológico. O relógio é implacável e parece que nunca conseguimos fazer tudo o que precisamos e dar checklist em todos os itens da nossa lista de tarefas. Isso é algo crônico que a sociedade sofre diariamente.
Então, para que você não seja devorado(a) por Chronos, deixe-me te apresentar um novo tempo. Um tempo que é piedoso, paciente e acalentador. Um tempo sem tempo, que não é linear e que não está exigindo que você conclua suas tarefas com rapidez.
Ah, mas esse tempo existe mesmo?
Sim! Existe um outro deus do tempo, mais precisamente, do tempo oportuno, e ele se chama Kairós. Enquanto Chronos é a personificação do tempo calculado, aquele subordinado ao relógio e do qual não conseguimos fugir facilmente, Kairós é a qualidade do tempo vivido. Kairós é o tempo oportuno, que faz um acontecimento ser especial, memorável, não em seus números, mas em sua significância — é o tempo interno.
Essa semana fiz um post no instagram falando sobre essas duas vertentes do tempo, porque vejo a maioria das pessoas correndo contra o tempo, como se estivessem em uma competição incessante com Chronos. Todo mundo sempre querendo fazer mais, produzir mais e descansar de menos. A mente não pára nunca e o implacável tempo não deixa espaço para caber todas as tarefas que a mente lista.
Essa pressa constante nos consome, nos deixa sem tempo para cuidar de nós mesmos, dos nossos relacionamentos, da nossa casa e até para desfrutar breves momentos de prazer e descanso. Ninguém mais tem paciência para fazer uma breve leitura, nem mesmo para aprender alguma coisa nova. Ninguém mais consegue esperar o tempo de um semáforo vermelho sem pegar o celular para resolver alguma coisa ou responder a uma mensagem.
[Essa falta de paciência, que talvez seja reflexo da ilusão da falta de tempo, pode ser pauta para um outro momento…]
Já em relação a esse tempo cronológico, reconheço que, de fato, ele é essencial para nossa organização e planejamento. Mas, será que ele é o único tempo que realmente importa?
O tempo sobre o qual podemos alcançar verdadeira maestria é o tempo de Kairós, esse tempo interno, caracterizado por sua prosperidade em contraste com a escassez de Chronos. Nele, não há pressa nem urgência, apenas uma consciência de um tempo muito maior. Kairós é a sincronicidade, o estado de fluxo perfeito com o Universo, onde tudo se encaixa e faz sentido.
É preciso aprender que a pressa não é necessária. Não podemos nos esquecer de aproveitar cada passo de nossa caminhada, de prestar atenção em cada momento que estamos vivenciando. É preciso deitar a cabeça no travesseiro, a noite, e ter a paz de que não vamos morrer se não dermos checklist em todos os itens da nossa lista de afazeres.
Somos seres humanos e não máquinas. Operamos, cada um, em seu próprio tempo interno, elegendo as prioridades e sem sofrer ansiedade por aquilo que foge ao nosso controle.
Mesmo vivendo em um sistema cronológico, quando estamos consciente do tempo de Kairós, não somos regidos nem drenados energeticamente por Chronos. Estar nesse estado preserva nossa saúde, vitalidade e criatividade.
Então aqui vai uma dica que eu tenho aplicado na minha vida para não arrancar os cabelos nos momentos de ansiedade: eleja as suas prioridades, tenha consciência das suas responsabilidades e aprenda a administrar essas duas variáveis em sua vida. Disciplina diária é necessário para o que desejamos construir em nossas vidas, e o que agora parece pequeno, o tempo mostrará que é algo grandioso. Mas não faça da disciplina algo rígido. Crie rituais diários para se conectar com suas prioridades e responsabilidades [fica mais gostoso e prazeroso chamar disciplina de ritual rs]. Não negocie as suas necessidades fisiológicas como dormir e se divertir com suas pessoas amadas, esses momentos são essenciais para a saúde mental e emocional, para fomentar a criatividade e a capacidade de tomar decisões sábias.
Tudo tem o seu tempo. Tudo está no tempo certo. Não lute contra o tempo, faça dele o seu aliado.
Qual tempo você está vivendo hoje?
Com carinho,
Morgana.