Por que o santo de casa não faz milagre?
Você, com certeza, já conhece esse ditado de que “o santo de casa não faz milagre”.
O que isso significa e por que isso acontece?
Esse ditado exprime a ideia de que as pessoas tendem a subvalorizar o que é próximo ou familiar. O santo é alguém — ou algo — que tem habilidades e características excepcionais, mas que, por estar muito próximo (até dentro de casa), não é reconhecido ou valorizado.
Pode ter raízes em uma passagem bíblica, Marcos 6:4, que diz o seguinte: Jesus lhes disse: “Só em sua própria terra, entre seus parentes e em sua própria casa, é que um profeta não tem honra”.
Vamos ilustrar melhor como esse ditado se aplica.
Por exemplo, um médico muito competente, que atende centenas de pessoas, mas cuja família prefere se consultar com outros profissionais. Ou funcionários competentes que são preteridos em promoções porque a organização contrata profissionais de fora. Ou artistas locais que só são valorizados depois de alcançar reconhecimento em outros países. Ou mesmo conselhos familiares que são desconsiderados, enquanto opiniões de desconhecidos têm maior peso. Ou viagens para o exterior que parecem mais interessantes do que viagens domésticas.
Esse ditado reflete a busca por soluções externas como um símbolo de status social e apreço, mas encobre um verdadeiro paradoxo que está arraigado na nossa sociedade. É o paradoxo de que cremos em algo extraordinário, mas temos dificuldade de enxergá-lo ao alcance dos olhos, na simplicidade do cotidiano.
Eu mesma, quando mais nova, tinha a ilusão de que viagens ao exterior eram sempre viagens grandiosas, ao passo que viagens no meu país natal não eram tão interessantes. Talvez porque fosse “mais fácil” me deslocar Brasil afora do que me deslocar para países estrangeiros. Talvez porque a diferença da cultura estrangeira enriquecesse o meu repertório pessoal de experiências.
Bom, fato é que nesse caso o santo do Brasil não faria milagre mesmo.
Assim como o americano sonhava em se especializar na Europa. Enquanto o europeu buscava viver o sonho americano.
O que há de errado com os seres humanos? kkk sempre insatisfeitos.
Acontece que de um tempo para cá (alguns anos talvez) eu tenha percebido o erro em me subjugar a essa expressão.
Para começo de conversa, esse ditado é uma tendência comportamental tão latente que quase nem nos damos conta de que estamos sob os seus jugos.
Porém, entretanto, contudo, como sou aluna exemplo em matéria de autoconsciência — isto é, sou uma estudante disciplinada de mim mesma — eu comecei a perceber essa tendência e passei a refutá-la: será que santo de casa não faz milagre mesmo?
Quando comecei a minha carreira solo, autônoma, eu percebi uma certa dificuldade das pessoas mais próximas em dar crédito ao meu trabalho. Só que isso nada mais era um reflexo da minha própria insegurança. À medida que fui ficando mais autoconfiante, as pessoas mais próximas começaram a se interessar cada vez mais pelo meu trabalho.
E então, vendo esse movimento acontecer, eu comecei a dar mais crédito para os santos de casa também! Ora, mas é claro! Como eu poderia exigir reconhecimento em casa se eu mesma não fosse capaz de dar esse reconhecimento?
Aprendi a valorizar as habilidades, competências, trabalhos e conselhos das pessoas de casa, às vezes mais do que de pessoas desconhecidas — a depender do caso! (há ressalvas, como tudo na vida). Isso me deixou mais próxima das minhas pessoas e me fez perceber o quanto eu tenho a aprender com elas e o quanto eu as subvalorizei.
O tempo não volta. Hoje eu penso o quanto eu poderia ter aprendido com parentes que já se foram se eu estivesse mais aberta aos milagres dos santos de casa.
Ainda bem que sempre é tempo de reconhecer o erro e fazer diferente. Todos somos aprendizes nessa grande escola da vida.
E quanto às viagens, eu passei a valorizar cada pequena viagem que eu faço dentro desse Brasil que eu tanto amo. Por mais pequena que seja a distância, podemos viver grandes transformações ao percorrê-las. Podemos encontrar uma pausa, um descanso, recarregar as energias e voltar para casa mais revitalizados. Aprendi a apreciar a paisagem local também. Como é lindo o nosso país! Não à toa, ele é destino de muitos turistas estrangeiros! Mesmo pequenas cidades próximas de onde moro, são destinos incríveis e longínquos para gringos.
Existe uma infinidade de lugares esplêndidos ao redor do globo. Não é que um seja mais bonito ou mais interessante do que o outro. Eles são apenas diferentes.
Aí está o segredo de aprender a valorizar o santo de casa. Reconhecer as diferenças. Reconhecer as imperfeições. Estar atento aos detalhes.
Então aqui vai um conselho: dê espaço para que o santo de casa faça o milagre! Às vezes ele não faz porque você o impede de fazer, na crença de que o extraordinário está do lado de fora. Mas ele pode estar ali, na sua frente, esperando que você o enxergue.
E em todo esse movimento eu percebi que o que nos faz subvalorizar o santo de casa é que conhecemos a intimidade daquilo que está próximo. Conhecemos fraquezas, vulnerabilidades, defeitos… e nos esquecemos completamente das qualidades.
Precisamos todos os dias reforçar o que há de bom ao nosso redor. É preciso ter olhos sempre atentos para não se distrair com ilusões de um mundo perfeito e extraordinário — e quase inalcançável — que está longe de onde estamos.
Abra espaço para que o milagre se revele para você na simplicidade do cotidiano… e no santo de casa!